
Entrevista Exclusiva: O Legado e o Futuro do Turismo e da Hotelaria no Brasil
Por Luiz Maggio
Em uma conversa franca e repleta de memórias, o jornalista Luiz Maggio recebe o Professor Virgílio Nelson de Carvalho, ícone vivo da hospitalidade brasileira, para analisar a evolução do setor, os desafios da qualificação profissional e por que o cliente de hoje não quer apenas ser atendido, mas sim compreendido.
Por Luiz Maggio
Existem pessoas que assistem à história acontecer, e existem aquelas que a escrevem com o próprio trabalho. Na hotelaria e no turismo brasileiro, o Professor Virgílio Nelson da Silva Carvalho faz parte do segundo grupo. Com mais de cinco décadas dedicadas a estruturar as bases da hospitalidade no país, ele é uma verdadeira legenda viva e uma referência que inspira gerações de profissionais.
Nascido em Lousã, Portugal, Virgílio começou sua jornada de forma simples, trabalhando na quitanda de seu pai na juventude. Formou-se em Turismo em 1974 pela Faculdade de Turismo do Morumbi — onde mais tarde lecionaria por 30 anos — e, desde então, sua assinatura técnica passou a fazer parte dos maiores marcos do setor no Brasil. Foi ele quem ajudou a consolidar o ensino hoteleiro de excelência ao dirigir o renomado CEATEL e a pioneira Escola de Hotelaria de Águas de São Pedro do SENAC-SP, trazendo ao país convênios internacionais com instituições do peso de Cornell, Lausanne e Glion.
No mercado corporativo, planejou e comandou operações de gigantes como a rede Transamérica Hotéis e Flats e o grupo Sol-Meliá. Sua visão estratégica também alcançou relevância nacional na esfera pública, onde presidiu o CODEFAT (Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador) e atuou na diretoria da Confederação Nacional do Turismo (CNTur). Consagrado por sua contribuição imensurável, ocupa hoje a prestigiada Cadeira nº 40 da Academia Brasileira de Eventos e Turismo e integra a equipe diretiva da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo.
Nesta entrevista exclusiva, o Professor Virgílio nos conduz por uma viagem no tempo: relembra o início de tudo, analisa o impacto da tecnologia nas recepções modernas e nos deixa um alerta fundamental sobre a urgência de humanizarmos os serviços. Prepare o café e aproveite esta aula de quem entende — e sente — o turismo em sua essência.
1. Professor Virgílio, sua trajetória confunde-se com a própria profissionalização do turismo no Brasil, desde a criação do CEPETUR nos anos 70 até a consolidação do CEATEL no SENAC. Olhando para essa evolução, qual o senhor considera ter sido o maior marco na transição de um turismo amador para a indústria de alta performance que temos hoje?
Prof. Virgílio Nelson: Toda a verdade da evolução do turismo, dos anos 70 até 2026, representa a importância desta cadeia produtiva que por muitos anos foi chamada de “indústria do turismo”. Eu, com efeito, não concordo com esse termo: para mim, trata-se de uma cadeia produtiva na área de serviços e de hospitalidade, que possui participantes muito diferentes do que se definia naquele tempo. Não gosto de falar em “indústria”; prefiro, cada vez mais, o termo “cadeia produtiva do turismo”, lembrando, principalmente, que já somos um dos maiores geradores de emprego e que, até 2030, teremos pelo menos um trabalhador a cada dez atuando no setor. O crescimento do tempo livre — como Domenico De Masi tão bem lembrava ao falar do ócio criativo — impulsionou essa evolução.
O setor evoluiu muito. Nos anos 70, o turismo ainda era visto como um bem de consumo supérfluo, mas foi instigado principalmente pela liderança de Guilherme Paulus com a CVC, que popularizou o turismo para a classe trabalhadora. Isso chegou a criar, inclusive, conflitos nos departamentos de Recursos Humanos no dia 1º de maio, quando tínhamos mais trabalhadores viajando do que participando das assembleias que os sindicatos gostariam de realizar.
Essa transição do turismo amador para uma cadeia produtiva de alta performance demonstra claramente a sua importância e qualidade, algo que acompanhamos de perto aqui no Estado de São Paulo. Sob a liderança do Governador Tarcísio de Freitas, dos ex-secretários Vinicius Lumertz e Roberto de Lucena, e agora da nossa secretária Ana Bizelli, o turismo caminha para alcançar o patamar de 10% do PIB do Estado.
Portanto, o maior marco dessa evolução é o crescimento no número de trabalhadores e na oferta de serviços. Inclusive, hoje já começamos a sofrer com a falta de profissionais qualificados para atender a esse mercado. Para se ter uma ideia, temos atualmente mais de 12 mil vagas em aberto na área de hotéis, restaurantes, bares e similares, sem contar as contratações temporárias em parques temáticos, eventos e afins.
Tentando resumir: estamos finalmente reconhecendo o devido valor ao setor, deixando de lado as conversas “de nós para nós mesmos” e discutindo, amplamente, o turismo e a sua relevância para toda a economia. Ele é de suma importância para a agricultura — onde não somos apenas consumidores de produtos, mas também utilizamos o meio ambiente como destino turístico — e para o setor de serviços, onde seguimos crescendo juntos. Vai, Brasil! Vai, turismo!
2. O senhor teve um papel fundamental na implantação de grandes redes hoteleiras, como Transamérica e Meliá, além de trazer referências internacionais de escolas como Cornell e Lausanne. Como essa bagagem acadêmica internacional moldou o padrão de hospitalidade brasileiro e o que ainda precisamos aprender com o mercado global?
Prof. Virgílio Nelson: Na verdade, toda a experiência que adquiri começou lá atrás, entre os anos de 1955 e 1960, como entregador de frango na quitanda do meu pai, que era um imigrante português. Depois, tive excelentes oportunidades na Bahiatursa, na Transbrasil e no Senac de São Paulo, onde ajudei a desenvolver o Hotel Escola de Águas de São Pedro e o CEATEL (Centro de Estudos de Administração Hoteleira), em convênio com instituições como Cornell, Lausanne e Glion.
Quando passei pela rede Meliá, pelo Transamérica, e atuei em conselhos e colaborações em prol do turismo, o meu objetivo sempre foi aplicar o que havia aprendido. Minha sugestão para todos é que busquemos aprender em cada momento, em cada trabalho e em cada oportunidade, para que possamos fazer melhor e transferir essas vivências aos novos profissionais. Passei 30 anos na Faculdade de Turismo da Universidade Anhembi Morumbi com o nosso líder Gabriel Mário Rodrigues, atuando como professor e coordenador de cursos, além de ter ajudado muito na implantação do campus da Mooca. Toda essa bagagem me permitiu, hoje, poder repartir, contribuir e continuar aprendendo constantemente com o mercado.
Sobre o que mudou na hospitalidade brasileira e o que precisamos aprender com o mercado global: a grande chave é a atenção ao hóspede. O cliente não quer mais apenas ser ATENDIDO; ele quer ser ENTENDIDO. Essa evolução mostra que a verdadeira hospitalidade precisa continuar tendo aquele “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” e o “seja bem-vindo” ditos de forma calorosa por uma pessoa. Eu sou humano e quero conversar com outros seres humanos.
É claro que a hotelaria atual chega ao ponto de eliminar a recepção física: você usa o seu cartão de crédito, faz a reserva, faz o check-in automático, acessa o elevador e abre a porta do apartamento pelo celular. Isso é moderno e prova que a tecnologia ajuda, mas eu, assim como a maioria dos clientes, ainda prezo pela conexão humana. O mercado quer ser compreendido. Devemos respeitar as inovações tecnológicas — que vieram para somar, assim como a telefonia e a eletricidade evoluíram a humanidade no passado —, mas sem perder de vista o calor humano. Mãos à obra para entender melhor o mercado e o cliente: não basta apenas atendê-lo, é preciso ENTENDÊ-LO.
3. Atualmente, o senhor ocupa cargos estratégicos na Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo e em diversos conselhos. Em um cenário com o avanço de novas tecnologias, quais são as prioridades do Estado para manter São Paulo como o principal hub de eventos e negócios da América Latina?
Prof. Virgílio Nelson: Hoje, considero-me um eterno aprendiz. Afinal, diante de tudo o que acompanhei na evolução dos serviços, hoje temos novas ferramentas que precisam ser encaradas com muita honestidade e responsabilidade para que o mercado continue crescendo de forma sustentável.
Atualmente, vivemos na capital e no Estado de São Paulo um perfil de ocupação hoteleira totalmente inédito. Lembro-me de quando comecei a lecionar na faculdade de turismo em 1972: o perfil da hotelaria paulistana era estritamente “cinco por dois”, ou seja, os hotéis ficavam lotados de segunda a sexta-feira e praticamente vazios nos finais de semana. Essa realidade mudou completamente. Hoje, em feriados prolongados, São Paulo registra ocupação próxima de 100% devido a uma vasta gama de eventos religiosos, culturais, de negócios e do segmento LGBTQIA+. O perfil é outro.
Quando me perguntam sobre as prioridades para São Paulo, afirmo que a principal delas é bem acolher o VISITANTE e orientar todos aqueles que vivem na cidade e no Estado a terem esse compromisso com o bem receber. Um exemplo prático disso é o policiamento na Avenida Paulista em feriados prolongados: eles precisam ter um olhar acolhedor e um atendimento muito especial. A segurança e a recepção têm melhorado significativamente, e agora o caminho é focar na orientação.
Resumindo a experiência que trago para a equipe da secretária Ana Bizelli na Secretaria de Turismo do Estado: nossa missão é conscientizar os 645 municípios paulistas sobre a importância de acolher bem quem nos visita. Às vezes, por mero acaso, um viajante fura o pneu do carro em uma cidade que nem sequer possui atrativos turísticos tradicionais, mas, au ser muito bem acolhido pelo borracheiro local, ele leva uma imagem inesquecível daquele lugar.
Minha mensagem essencial é que todos nós nos dediquemos, diariamente, à hospitalidade e ao bem receber, pois é isso que fará o turismo continuar prosperando em São Paulo e no Brasil.
Mãos à obra! E lembrem-se de uma máxima que trago das minhas origens e que sempre recordo: nós, padeiros portugueses, “fazemos sonhos todos os dias com os pés no chão e a cabeça erguida, mas o mais importante é atacar no bolo e defender a massa”.
Mãos à obra, vai TURISMO, vai Brasil!
Considerações Finais do Editor (Por Luiz Maggio)
Ouvir o Professor Virgílio Nelson é, antes de tudo, compreender a alma da hospitalidade brasileira. Em uma era onde algoritmos e inteligência artificial tentam prever cada passo do consumidor, o mestre Virgílio nos recorda da mais elementar das verdades: a tecnologia é um meio, nunca o fim. A essência do turismo permanece ancorada na empatia, no olho no olho e na capacidade humana de acolher e “entender” o outro.
Como companheiro de jornada na comunicação e nos conselhos de turismo paulistas, vejo em Virgílio o verdadeiro exemplo do profissional de alta performance que nunca perdeu sua essência de acolhimento. Seu conselho final — inspirado na belíssima metáfora dos padeiros portugueses que fabricam sonhos mantendo os pés no chão — serve como guia de navegação para a nova geração de gestores e turismólogos que herdarão o mercado brasileiro nos próximos anos.
As políticas públicas de fomento que hoje desenhamos nos conselhos de turismo paulistas buscam, justamente, garantir a infraestrutura para que essa cadeia produtiva continue a gerar riqueza, dignidade e milhares de empregos em nosso Estado. Que a lição deste eterno e brilhante aprendiz ecoe em cada um dos nossos 645 municípios. Muito obrigado, Professor Virgílio Nelson!
Sobre o Entrevistador:
Luiz Maggio .’.
Jornalista MTB 62420
Editor do Jornal Digital ClickUS – Acontecimentos Mundiais
www.clickus.com.br
Conselheiro de Turismo do Estado de SP – CONTURESP
Conselheiro de Turismo do Município de SP – COMTUR
Vice-Presidente da ABRAJET SP 2024 /2026
E-mail: luizmaggio@gmail.com
WhatsApp: +55 (11) 98270-1536
Sobre o Jornal Digital ClickUS
O ClickUS Jornal Digital é um veículo dedicado a promover o turismo, a cultura e os negócios no Brasil e no exterior. Com uma abordagem dinâmica e informativa, destacamos iniciativas e personalidades que contribuem para o desenvolvimento do setor.
Aguardo seus comentários e contribuições para enriquecer esta entrevista!
Atenciosamente,
Luiz Maggio – EDITOR
Apoio Jornalístico:








2. Com a experiência de ter entrevistado quase 400 líderes e gestores no seu programa “Café Corporativo”, quais são as dores e tendências mais comuns que você identifica nas empresas brasileiras hoje, especialmente no que diz respeito ao atendimento e às novas tecnologias, como a Inteligência Artificial?





Dentro do setor sucroenergético eles são excelentes, da porteira para dentro e com seus próprios pares, mas quando o assunto é comunicação, existe um grande abismo. Com a pandemia vi o desespero dos empresários do turismo e percebi essa mesma dificuldade, cada um olhando para o seu quadrado. Ou seja, agências de viagens sem interagir com os meios de hospedagem, atrativos turísticos, etc. Resolvi mostrar a importância da comunicação no todo e não apenas em cada segmento e colocar no centro dessa comunicação o turista, que sempre foi o mais impactado com a falta de comunicação do setor.
Sabe por que? Nos estabelecimentos, sempre há mulheres envolvidas, seja nos atendimentos,
Com a pandemia, perdi meus contratos e vi o sofrimento do setor de turismo. Resolvi ajudar.
A minha trajetória como professor e jornalista, na verdade até mesmo antes da minha vida profissional, foi despertando em mim o interesse pela área de comércio exterior. Ao longo do tempo, conforme fui conhecendo pessoas e construindo relações, sinto que o caminho foi se abrindo, até que enfim, consegui ingressar nesse campo com o apoio de diversas pessoas.
Vamos direto às perguntas:
O nosso processo se torna diferente justamente por conta desses elementos, pois cada um deles ajuda a trazer algo para o nosso produto. A Mata proporciona um clima único com muita umidade para o crescimento de nosso canavial que com ele desenvolvemos a nossa fermentação sendo ela “selvagem ” trazendo aromas únicos e um paladar diferenciado a nossa Toca da Coruja. Isso gera esse terroir único para nossos produtos.
Sim, aqui na
Nós tentamos produzir um produto de altíssima qualidade para que isso possa agradar o maior número de pessoas. Temos um ambiente e uma metodologia de produção que se bem conduzida nos dá a oportunidade de conseguir obter esses produtos. Com isso para um posicionamento da marca temos a preocupação de colocar nossas cachaças em alguns concursos para que ela possa ser avaliada. Nosso objetivo não é só os títulos que com muita felicidade temos ganhado, mas sim mostrar ao mercado que conseguimos fazer produtos com alta qualidade e equilíbrio. E assim conseguimos ajudar no crescimento do setor da cachaça tentando que ele tenha cada vez mais um reconhecimento municipal, nacional e mundial mostrando para as pessoas para que elas valorizem cada vez mais o nosso patrimônio nacional, a nossa “Cachaça”. Acho isso um papel que graças ao empenhos de muitas ótimas marcas hoje existentes no Brasil ajuda a melhorar a aceitação para o nosso destilado brasileiro, e com a nossa cachaça é um prazer participar desse momento na história da cachaça.
Nós temos sempre a preocupação de trazer produtos únicos com a assinatura da Toca da Coruja para o mercado. Isso nos traz um diferencial. A Toca Terra & Torra é um desses produtos. Ela tem um aroma único que une os aromas de nossa cachaça de carvalho somados aos aromas do café especial. Com ela os chefes de gastronomia e bartenders podem criar combinações muito interessantes e proporcionar sim novas experiências aos seus clientes.
Considerações Finais